terça-feira, 28 de abril de 2026

A Ovelha sem cerca


Havia uma ovelha chamada NÓIA.  a ovelha NÓIA era forte, tinha a lã branca e um espírito que ela chamava de “livre”, mas que o Pastor chamava de “temerário”.

Enquanto as outras ovelhas do rebanho se contentavam em pastar onde a grama era segura e em descansar sob o olhar atento dos pastores auxiliares,  a ovelha NÓIA olhava para o horizonte.

Ela detestava o som do cajado batendo no chão. Para ela, aquele som não era proteção, era controle. “Por que preciso dizer para onde vou? Por que esse Pastor insiste em me cutucar sempre que chego perto da borda do precipício?”, ela balia para as outras.

Certo dia, aproveitando uma névoa que baixou sobre o vale,  a ovelha NÓIA viu sua chance. O Pastor estava ocupado cuidando de uma ovelha ferida, e os auxiliares estavam organizando o aprisco. NÓIA não correu; ela simplesmente caminhou para fora. Sem cajado, sem avisos, sem “olhares vigilantes”.

A primeira hora foi inebriante.

Ela comeu flores silvestres que nunca tinha provado. Ela bebeu de uma poça de água parada que parecia deliciosa, ignorando que o Pastor sempre as levava para águas correntes para evitar parasitas. Ela se sentia a dona do próprio destino.

Mas o sol começou a baixar. E, com o escuro, o mundo que parecia vasto começou a parecer apertado.

Primeiro, veio a sede. Aquela água da poça começou a revirar seu estômago. Depois, veio o silêncio — um silêncio pesado que as ovelhas do rebanho nunca conheciam, pois sempre havia o som da respiração uma das outras e a voz mansa do Pastor ao longe.

NÓIA tentou voltar, mas percebeu que não tinha bússola. Ela se meteu em um matagal de espinhos. Quanto mais lutava para se soltar, mais os espinhos se prendiam em sua lã. Ela estava presa, sangrando e, pela primeira vez, vulnerável. No escuro, ela viu dois pontos amarelados brilhando: o lobo.

O lobo não atacou de imediato. Ele circulou, saboreando o fato de que aquela ovelha não tinha ninguém por ela. NÓIA tentou balir, mas sua voz estava rouca de medo. Ela percebeu, com um nó no peito, que sua “liberdade” era, na verdade, um abandono que ela mesma escolhera.
Justo quando o lobo se agachou para o bote, um som familiar cortou o ar. Não foi um grito, foi o som seco e firme de madeira batendo contra a rocha. 

Uma luz de lanterna varreu o matagal. O lobo rosnou, mas recuou diante da silhueta alta que se aproximava. Era o Pastor. Ele não chegou gritando ou repreendendo. Ele simplesmente afastou os espinhos com mãos calejadas, ignorando os cortes que os próprios espinhos faziam em sua pele.

Enquanto ele a carregava nos ombros — pois ela estava fraca demais para andar — NÓIA encostou a cabeça no pescoço dele. Ela sentiu o cheiro do azeite e do suor. Ela percebeu que o cajado que ela tanto odiava era a única coisa que mantinha o lobo à distância.

Naquela noite, de volta ao calor do aprisco, a ovelha NÓIA entendeu a lição:

O pastoreio não é uma prisão para quem quer ser livre, é um escudo para quem quer viver.

Ela descobriu que ser “livre” no deserto é apenas uma forma lenta de morrer, mas ser pastoreada é ter a garantia de que, mesmo em sua rebeldia, existe alguém cujo amor é maior que a sua teimosia.

“Assim como  a ovelha NÓIA precisava do calor do Pastor, cada um de nós é como aquele pintinho que precisa do calor das asas da mãe galinha. O Pastor de grupo de oração ou de vocação é esse que, às vezes com o cajado, às vezes com o colo, garante que a sua vocação não morra de frio no matagal da autossuficiência.”

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